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— Nóis inda tamo ino… — Puis nói d’já fumo i agora tamo vortano! — Ataiaro por onde? — Cortemo pur drento. — Chééé! Pur drento nóis nunca cortemo; tem muita preda! Nóis ataia por riba. — Nóis corta pur drento, num vai mais discarço, num semo jacu! — Nóis tamém bamo tudo de carçado, mais é que as preda são munto lisa i arguma das criança pode levá um pialo… — Intão, nesses causo, é mió segui pela tria batida memo. — I as coisa lá na cidade, dero certo? — Malemá… — Pamóde o quê? — ‘Móde que ninguém trabaia hodje. Só a Casa Santa i argumas venda tão aberta. — Ché! I cumé qui oceis fizero? — Fizemo do jeito qui dava pra fazê, ué!? Fumo inté a casa do home i batemo parma. — Eles tava na casa ô forum vê o disfile? — A dona Chiquinha, póve… Num consegue inxergá nem as picumã pur riba do fogão de lenha, i o mais pior é qui só iscuita si a d’jente chega a boca drento da oreia dela i falá bem arto. — Ocê proseô cum ela? — Chééé!!! Falei bem arto no pé da oreia dela, izpriquei qui nóis tava lá pamóde lavá as janela, cunforme nói já tinha cunvinado c’o Zé Nacreto. — I ela, dexô oceis garrá a tarefa de cum fôrcha? — Craro! Mandô nóis entrá pá drento i serviu um café cum leite beeem gordo i tomém uns pedaço de bolo de fubá. Tava disgranhento de bão! — Chééé… A comade Chiquinha faiz um bolo de fubá inguar fazia minha finada vó… Caiporento de bão!? — Nóis tava memo c’o a barriga nas costa; comemo e fumo lavá as janela! — Mardiçoento rapaiz! Quiria tá lá c’oceis pamóde comê um taio do bolo de fubá! — Mais num tava. Quem mando ficá bebeno inté munto tarde! — Num é… Tava na venda do Ponciano, proseano c’os colega, falano da vida aieio… Ocê sabe qui o Ponciano é cheio de nove hora! — Ocê, lavorento, que é cheio de nó pas costa! Enche o cu de pinga i dispois num consegue acordá antes dos passarinho! Tomô no fióte! Nóis lavemo as janela da muié e tamo vortano cum cinquenta merréis no borso i uns par de pedaço de bolo de fubá no bucho! — E as janela, dero munto trabaio? — Ché!? Fizemo a roçada rapidinho, parecia puxirão pá quebrá mio… — Chééé! Mó de que d’jeito? A casa da muié deve tê umas mir foia de porta i umas mir janela!? — Premero qui nóis num fumo lavá porta, i dispois, pamóde ocê pará de inchuânça, a dona Chiquinha num é atrasada inguar nóis i mandô o João Cráudio, um fio do Tonico Morgote qui é afiado dela, buscá lá no Tarzan um petrecho desses moderno, qui sorta um canudo d’água consoante um gaio de pau branco feito de durepóque!
Desde que Pedro Vilarino Ferreira (1919 - 1986), o Cuitelo, criou o grupo de Fandango de Tamanco, em 1964, já se vão 45 anos de colibris, tangarás e laranjeiras. Presença constante no Festival do Folclore de Olímpia/SP, o grupo vem se renovando e tem tudo para atingir a marca de meio século de existência dentro em breve, uma vez que a nova geração, os neocaipiras, cuidam com zelo e disciplina de manter viva a chama acesa por aquele beijador de flores há mais de 40 anos. Naqueles outros tempos não havia muitos fan-dangueiros, ou, os que existiam estavam espalhados pelos diversos bairros da zona rural do município de Capão Bonito, assim, segundo Diogo Silva, sempre quando das festas religiosas, casamentos, mutirões (puxirões) e outros eventos de caráter social e coletivo, havia a convocação para que este sanfoneiro do bairro de Ana Benta comparecesse, também aquele violeiro do bairro dos Gomes se fizesse presente, além deste fandangueiro do Ferreira dos Matos, aqueloutro do então distrito de Ribeirão Grande levasse a fé, os pés e a coragem para a labuta na tarefa ou apenas para o lazer da comunidade. Dessa forma, sendo para o trabalho numa puxada de enxada, numa furiada para levantar uma casa de pau a pique, para uma Folia de Reis ou para celebrar um casório na roça, lá iam os músicos e os artistas com seus tamancos feitos de laranjeira – sim, porque à exceção de laranjeira e canela, outras madeiras não possuem a resistência ideal e acabam por rachar ante as primeiras tamancadas. A celebração acontecia de acordo com o evento programado, ou seja, no caso dos mutirões, ao final da empreitada o dono da propriedade beneficiada servia refeição aos presentes, sempre regada às folganças dos queromanas, violas e pés-de-bode (sanfona de oito baixos). A origem da variação brasileira dessa dança espanhola possui diversas – e até controversas – explicações, sendo, porém, das mais aceitáveis a que atribui aos tropeiros oriundos do Rio Grande do Sul e seguindo em direção à Feira de Muares em Sorocaba/SP o pouso e posterior enraizamento da dança. Algumas características sutis que a complementam fortalecem essa possibilidade gaúcha, pois, o próprio termo 'queromana', palavra caída em desuso nos dias de hoje e por isso dificilmente – ou sequer – encontrada nos dicionários mais recentes da língua, aparece nos exemplares anteriores à reforma ortográfica de 1970 com hífen e a definição que segue: “Quero-mana, s. m. (Bras. Sul) Antigo bailado campestre, espécie de fandango; canto popular que se executa ao violão.”. O grupo de Fandango de Tamanco Cuitelo de Ribeirão Grande talvez seja o único exemplar em atividade dessa modalidade de dança tipicamente caipira e de cunho social. Diogo conta que noutros tempos existiam outras agremiações de fandangueiros em Capão Bonito, onde a participação de mulheres era algo bastante comum, ocorre, porém, que com o passar dos anos esses grupos foram perdendo seus integrantes devido à falta de interesse dos mais jovens, ocasionando o envelhecimento e consequente desaparecimento desses grupos mistos de fandango. As coreografias, o repertório, o figurino e, de certa forma, a hierarquia dentro do grupo de fandango também constituem esse todo. Diogo, que diz ter se interessado por essa manifestação popular em 2006, por intermédio da comissão de Arte e Cultura do Projeto Geração – Capão Bonito/SP, conta que o figurino oficial do fandango do Cuitelo é composto, além dos tamancos, é claro, pelo chapéu de palha, a camisa xadrez azul e branca e o lenço no pescoço, o qual, segundo afirma, representa os beija-flores em sua grande variedade de tons e cores, daí o fato desses lenços serem amarelos, verdes, azuis, posto que tudo depende do gosto individual de cada fandangueiro. Quanto ao repertório, basicamente são queromanas criados de improviso e seguindo a tradição (“No repique da viola, bate a mão e bate o pé...”), quando os cantadores atiçavam uns aos outros com cantigas para chamar à dança e, quase sempre, à resposta cantada; quem basicamente gerencia essa evolução é o mandadô, que recicanta as ordens para o restante do grupo, o qual, devidamente ensaiado, atende aos diversos chamados, entre eles um “Todos sabem como é...” ou “Tô na viola, não vô mais...”, além de outros tantos utilizados para comandar algumas das coreografias tradicionais: luxinho no lugar, luxinho batido, volta inteira, tangará e cortesia. Uma das curiosidades sobre a coreografia do grupo fica por conta da Tangará, onde os fandangueiros imitam a maneira de como esses pássaros cantam e 'dançam' trocando de lugar; já com relação à Cortesia, a característica principal é que o sapateado é executado com os pés batendo para trás - trata-se de uma dança final, de agradecimento. Há histórias de festas onde os fandangueiros varavam a noite dançando e chegavam mesmo a trocar de camisa tamanha a transpiração e o suor impregnados na roupa; ainda hoje, atesta Antonio Silva, pai de Diogo, sempre que o grupo se apresenta no bairro de Ferreira dos Matos, a nostalgia e a tradição fazem com que o evento tome exagerados ares de jogo da seleção brasileira de futebol ou coisa parecida, uma vez que os aplausos calorosos e as lágrimas incontidas dão a tônica ao acontecimento. A Associação da Cultura Caipira 'Cuitelo', de Ribeirão Grande, assim como outras entidades do município e da região, está empenhada no conhecimento, no resgate, na divulgação e na manutenção desses valores da cultura caipira. De acordo com Diogo, esse trabalho inclui também eventos em conjunto com outras associações interessadas no tema.